Terra boa de viver!

Texto e foto de Valéria del Cueto

Quem te viu, quem te vê, meu Mato Grosso. E, apesar do seu ar de surpresa, reafirmo: meu Mato Grosso. Outro dia, fazendo contas, descobri o quanto ele está na minha vida.

Alguns pensam que ela, minha epopéia mato-grossense, começa com a chegada a Cuiabá, no dia 24 de julho de 1984. Ancorei e por aqui fiquei até 2000, quando entrei de cabeça no Sem Fim. Rodei o material do projeto e fui pro Rio. Levei 4 anos para terminar o filme e mais um tanto fazendo o curso superior que pedi à Deus: a faculdade de Gestão Carnavalesca.

Voltei para MT em 2008 e, de lá pra cá, lá se vão mais 3 anos de amável, feliz e profícua  vivência no Centro-Oeste. É tempo!

Mas, como disse, isso é apenas um pedaço do bolo. Que, na verdade, comecei a comer muito antes quando, aos 6 anos, minha família deixou o Rio e viemos para cá.

O cá para mim era longe para caramba: a fronteira do Brasil com o Paraguai, num tempo em que de lá parecia para mim, uma criança do Leme, um mundo inacreditável. Sem asfalto, telefone e luz apenas de gerador, algumas horas por dia, como pude constatar ao pousar na vila Militar do 11º Regimento de Cavalaria. Ponta Porã foi um incrível choque cultural.

A televisão só não fez falta por que não era um hábito muito cultivado e perdia feio para qualquer passeio pelo Rio de Janeiro. Uma idazinha a praia então, nem se fala…

Foi nessa época que descobri que o que importava numa mudança eram os discos, livros e só um pouco mais.

O vácuo cultural era preenchido com o recebimento do pacote semanal de jornais cariocas: O Globo e o JB. Duro era quando chegava o embrulho. Uma briga de foice pelas notícias de, no mínimo, 20 dias antes.

Foram 4 anos na fronteira. Uma infância e tanto. Cheia de peripécias e aventuras em três línguas: português, castelhano e (como lamento não saber falar) guarani. Infância esta, que continuou e terminou no Leme, Rio de Janeiro.

De lá, fomos morar no Posto 6, onde soubemos que lá ia papai de novo. Desta vez, para Bela Vista. Ficamos estudando no Rio, mas com a cabeça, o coração e as melhores lembranças da adolescência embaladas ao ritmo de inolvidáveis polcas e guarânias paraguaias.

Lá, onde passávamos pelo menos 4 meses por ano – quando as férias de final de ano  começavam dia 1º de dezembro e só terminavam no início de março e as férias de julho eram de cabo a rabo – é que a vida era boa! O rio que separa o Brasil do Paraguai, com três letras, em toda palavra cruzada que se preze, o Apa, era nosso clube de natação e volei. Mais os churrascos, bailes e as serenatas…

Mesmo quando o del pai pode voltar continuamos,  eu e minha irmã, na onda belavistense, abrigadas na casa de amigos queridos que nos recebiam como parte da imensa família de Dom Pompílio e Dona Henriqueta Pedra.

No final da década de 70, arrumei um namorado carioca e os verões ficaram mais calientes na beira da praia,  na Pedra do Arpoador.

Mas, já em 84 meu imã matogrossense me atraiu para o centro geodésico do Brasil e da América do Sul. E, daqui, quando saio, sempre volto.

Se tenho saudades do meu Rio? Sempre. Principalmente quando, como ha 40 anos atrás, me pego aguardando, ansiosa, o pacote de jornais (agora só O Globo) enviado por minha avó quinzenalmente, do correio do Leme.

De casa, sou a única que mantém este vínculo tão distante, uma referência permanente. É como se o tempo não passasse, já que os jornais e as saudades continuam os mesmos…

* Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Este artigo faz parte da série Parador Cuyabano, do SEM FIM http://delcueto.multiply.com

Ma teus

Texto de Valéria del Cueto

Mateus é um menino que mora na casa ao lado do chalé. Outro dia descobri que a presença de Mateus é essencial para me reconhecer definitivamente uma chapadense, a cada final de semana que me escondo por lá.

Tudo é uma questão de ponto de vista, o que para meus amigos cuiabanos pode ser um ëscondimento”, na verdade é o que me coloca em contato com as plantas, os insetos e, principalmente os pássaros cantantes do meu pedaço alugado.

Quando chego, depois de uma semana encarapitada no apartamento da Avenida São Sebastião ( o santo padroeiro do meu Rio de Janeiro me protege e abriga na atual temporada no centro-oeste), procuro o reconhecimento mútuo entre os elementos do meu habitat e a forasteira que vos escreve.

Respiro fundo, abaixo o giro, apuro os ouvidos e deixo o ritmo do chalé e seu entorno me envolverem.

Normalmente fico quietinha no meu canto até o dia seguinte e, só então exploro o entorno: a praça, a padaria, a Pomodori. São as 3 Ps. Mas isso, depois de Mateus. Só o vejo bem de longe e ouço, muitas vezes por dia, o brado de reconhecimento:

- Mateeeeeeuuuusssss! Vozes femininas, masculinas adultas e infantis repetem o chamado em tons variados, muitas vezes bastante aborrecidas. Principalmente as masculinas. Mateus está na boca do povo da esquina da margem da piscina.

Resumindo: ele vive aprontado, como devem  fazer os meninos da sua idade. Ele não é como Ana Clara, uns 6 anos, que veio me conhecer e assuntar logo que comecei a subir para cá. Mantém distância e só abre um pouco a guarda na época das mangas.

De vez em quando encontro rastros dele em baixo das mangueiras e nas frutas, pedaços cortados com faca espalhados pelo gramado.

- Foi o Mateus, entrega Ana Clara que, politicamente correta, vem perguntar se pode pegar algumas frutas da safra que começa. – Já disse que você é legal, me avalia e avaliza a menininha.  - Mas ele gosta mesmo é de pular o muro durante a semana e correr o risco de levar uma bronca, explica ela, aproveitando o momento amizade para solicitar o serviço completo: quer eu vá em busca das mangas que ela escolhe, enquanto tento atingi-las e derrubá-las com um pedaço enooorme de galho.

Mateus me dá menos trabalho, penso enquanto tento acertar as frutas escolhidas por minha amiguinha exigente. Não as mais próximas, mas as mais lindas do pé, é claro. Um trabalhão!

Mateus está corretíssimo, admito para mim mesma. Tantos chamados têm que ter uma ou muitas razões. A emoção é tudo e, todo mundo que já experimentou, sabe que fruta roubada é muito mais gostosa do que fruta dada.

Nunca chamei por ele. Volta e meia vejo sua sombra montada na bicicleta riscando a lateral do terreno vizinho, despencando na Travessa da Piscina e circulando a cerca espinhenta de sansão em direção ao mundo chapadense.

Admiro Mateus. Queria ser criança como ele. Livre, leve e quase solto, se não tivesse sido a menina aventureira e arteira que fui…

* Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Este artigo faz parte da série Parador Cuyabano, do SEM FIM http://delcueto.multiply.com

Conto de fada

Texto e foto de Valéria del Cueto

Pode achar estranho por que, para mim, também não é normal. São sete e meia da manhã. Uma hora improvável de um dia pra lá de inacreditável. Uma segunda feira. O que a gente não faz por amor a vida no campo.

Pensando bem (se é que alguém consegue fazê-lo de forma razoável nestas condições), esta é a antítese do meu ideal inspiratório. Para quem não se lembra assinalo e comemoro as sextas feiras, aí pelas três e meia, preferencialmente na Ponta do Leme.  Nessas condições vou para o abraço. As ideais fluem, o mundo é azul, o mar fica para peixe e sou a dona de tudo isso.

Naquelas condições, melhor dizendo. Por que – como já deu para notar – está difícil juntar os meus neurônios  no horário atualmente imposto pela necessidade de esperar pacientemente o carro que, todas as segundas, me leva de volta a Cuiabá. Sempre depois de um delicioso final de semana na Chapada dos Guimarães, Mato Grosso, Brasil. Onde, graças a Deus, dificilmente alguma coisa dá errada.

Dificuldade realçada especialmente neste horário quando as minhas ações são, normalmente, mecânicas: acordar, fechar a casa da Travessa da Piscina, sem número, tirar o lixo, me arrumar (não necessariamente nessa ordem) e esperar.

Quase uma rotina (arrre!).

Até outro dia esperava recortando flores de chita para decorar as portas internas do chalé. Mas, uns quatro metros de tecido e, creio eu, em torno de 45 arranjos florais depois, a tarefa de fortalecimento da coordenação motora em estado quase vegetativo se esgotou.

O sol bate em cheio no caderno recém iniciado (esta é a segunda crônica que escrevo no novo parceiro) esquentando meu corpo e o sofá, ambos ainda fresquinhos da noite frienta deste último domingo.

Ouço o conversê dos passarinhos que cantam como se não houvesse amanhã, segunda feira,  e (sempre) uma semana inteira de labuta antes que eu possa retornar.

A buzina toca. Levando, guardo o caderno e a caneta. Recolho a bolsa e a mochila, fecho a casa, ligo o alarme. Desço as escadas e faço a curva, em direção ao portão de madeira.

Ao longe vejo minha “carruagem” pronta para me levar para meus compromissos. Os passarinhos se despedem. Corro em direção ao portão. Tenho hora. Não posso me atrasar. Vai que o transporte vire abóbora…

* Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Este artigo faz parte da série Parador Cuyabano, do SEM FIM http://delcueto.multiply.com

O alce amigo

Texto de Valéria del Cueto

Era uma vez um casal numa reunião de amigos. Lá pelas tantas a mulher se dirige à sua cara metade nos seguintes termos:

- Alce, por favor, me passa o guardanapo?

Olhei para o marido. Alce, pensei. Procurei alguma semelhança. Não havia. Associei a imagem do animal ao seu similar mais próximo. Nenhuma parecença.

O codinome havia sido usado de uma forma cem por cento carinhosa. Como a conversa estava boa, alguma coisa me distraiu e esqueci o assunto. Até que, alguns dias depois…  Lá vem ela de novo, num papo sobre viagens

- Adoramos a Europa, não foi, Alce? E o marido lá felizão com o apelido íntimo, porém adotado publicamente.

Não resisti à curiosidade e, na primeira oportunidade, fui direto ao ponto e encostei, gentilmente, a amiga na parede perguntando que raio de tratamento era aquele. O fiz de forma a deixar claro que minha curiosidade feminina não continha nenhum tipo de preconceito em relação ao animal em foco.

- Alce? Disse eu. Que coisa mais original. De onde vem essa imagem tão meiga?

Os olhos dela reluziram quando começou a responder, com aquele brilho que acompanha a narrativa de uma de nossas melhores lembranças. Aquelas inesquecíveis e insubstituíveis.

- Você reparou que eu chamo meu marido assim?

- Carinhosamente. Acrescentei, provocando uma risada gostosa e cúmplice. Sinal de que a história sairia sem maquiagem ou restrições.

Vamos a ela, tal e qual me foi narrada:

“Na lua de mel  fomos à Europa e, a certa altura da viagem, numa estradinha nos Alpes, depois de horas rodando, quando a gente procurava um hotelzinho romântico que tinham nos recomendado, nos perdemos. Era final de tarde.

Eu olhava o mapa e ia indicando as referências já que, naquele tempo, mulher era GPS e co-pilota. Disse pra ele dobrar a direita, mas ele me desobedeceu e seguiu em frente. Mais adiante descobrimos que a estradinha era um beco sem saída.

Quando vi, quis dizer que ele havia feito uma burrice. Mas me lembrei de mamãe que me ensinou a sempre tratar bem meu companheiro. Chamar o marido de burro, já na lua de mel, ia contra meus princípios de mulherzinha recém casada.

- Ora, seu…

Fiquei sem palavras por uns segundos procurando um sinônimo para a qualidade que eu queria imputar a ele, até que vi uma placa sinalizando que havia animais na pista. E o bichinho estilizado era um alce. Tão fofinho…

- Ora, seu… ALCE! Falei. – Fui super educada, não é? – Pois ele entendeu  o recado, riu da sua teimosia masculina e o apelido pegou…”

Moral da história: Se é para xingar o marido, que seja de forma singela para o entendimento dele. O que os outros pensam, não tem a menor importância. Não é mesmo, Alce?

** Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Este artigo faz parte da série Parador Cuyabano, do SEM FIM http://delcueto.multiply.com

Bruno, orgias e cães


Todos devem se lembrar quando o atacante do Flamengo, Adriano, agrediu a sua namorada. Em meio a toda discussão, o goleiro Bruno foi um dos poucos a defendê-lo publicamente, mas de uma forma desastrada e inconsequente. Sua defesa consistiu numa pergunta generalizada aos repórteres, ao indagar quem já não teria dado uns safanões nas companheiras ou namoradas. Na linguagem bandida, quem não já saiu na mão.

Talvez o goleiro tivesse até razão. O exagero seja apenas pela generalização. Mas, pela cultura machista dos homens, pela aceitação passiva das mulheres, pelo número de denúncias e pela impunidade dos agressores, é do conhecimento notório que a afirmação de Bruno era verdadeira, embora não defensável. Como ele mesmo é acusado agora, assassinato tem todo dia no Brasil, mas passa longe a defesa dos criminosos só por que os assassinatos são generalizados.

Caso se confirme as evidências do envolvimento de Bruno na morte macabra de sua amante, o Brasil tomou conhecimento de que os petelecos de Adriano na namorada, para Bruno, seria mesmo um canapé perto do que o goleiro seria capaz de fazer.

Esse episódio traz vários pontos para reflexão. Primeiro, a forma macabra prova que há sempre a possibilidade de um crime bater o recorde sinistro de brutalidade, caso se confirme que o corpo da moça tenha mesmo alimentado os cães do algoz.

Depois, fica claro que o goleiro desprezou a relação de compromisso com a esposa, ao se relacionar com outra mulher, sem importar se era imaculada ou prostituta. Até aí fica adstrito ao foro íntimo de cada um. Ao se tornar público, a gravidez prova o descaso do jogador com a sua própria saúde, com a de sua esposa e de outras pessoas com quem viesse a se relacionar, pois não usou camisinha. Agrava, ainda, caso se confirme se tratar de uma moça de programa, como ele insinuou à revista Veja.

Apesar de ser reiterada por homens irresponsáveis, sua desculpa de estouro da camisinha beira o ridículo. Caso fosse verdade, parasse, e colocasse outra. A não ser que suas orgias ultrapassassem a capacidade do raciocínio. O que fica claro é que fama e dinheiro inebriam muita gente e os deixa com a sensação de estar acima de tudo. Mas a Justiça brasileira passou a provar o contrário, ainda que já tenha sido muito benevolente, como prova Pimenta Neves, livre, leve, solto e assassino confesso. Ninguém sabe sobre o andamento do seu processo.

Com a decretação da prisão sequencial de várias pessoas, demonstra como o crime envolve tantas pessoas desde o planejamento até a execução, sem que nenhuma tenha tentado ou interrompido tanta crueldade. A expectativa de morte deve trazer mais aflição do que a própria morte. Enquanto a presa ficava trancafiada, os acusados divertiam-se e, quando algum ia ao êxtase, dirigia-se ao quarto, e agredia a moça ao seu modo. Em nenhum momento a presença da criança serviu para amenizar tanto sofrimento. Um verdadeiro calvário!

Mesmo com uma morte tão sinistra, situação reiterada no Brasil, o Congresso Nacional não move uma palha para discutir a mudança da Constituição com vistas a aprovação da prisão perpétua. Para casos como este nenhuma pena seria justa, pois quem mata, planeja como, sabe dos riscos de sua penalização e, ainda assim, sacia sua sede criminosa com a vida alheia. Mesmo que fossem punidos com a pena de morte, os seriam em razão de massacrarem outra pessoa, com o beneplácito de não sofrerem por tempo igual ao das suas vítimas. As autoridades que se pronunciam sempre sobre seleção de futebol, seus times, não falam uma palavra sobre caso tão escabroso. Manifeste-se aquele que nunca sofreu uma violência ou teve alguma vítima na família.

De todo esse episódio, o único fato positivo foi a ação rápida da Justiça ao determinar a prisão dos envolvidos. A preocupação fica com a possibilidade de demora no julgamento permitir liberdade aos acusados. Ninguém merece correr o risco de cruzar com um “anjo” desses pelas ruas.

De volta ao Congresso Nacional, enquanto não vem uma discussão sobre a pena capital, que aprove ao menos uma pena mínima de 30 anos e máxima de 40 anos para assassinatos dolosos. A morte premeditada não pode ter pena com tanta elasticidade entre a mínima e a máxima como é hoje. Muitas vidas seriam salvas só pela aprovação do aumento da pena mínima. O assassinato como entretenimento ou para alimentação de cães precisa de uma pena à altura neste país.

Pedro Cardoso da Costa – Interlagos/SP

Bel. Direito

Em campo

Texto e foto de Valéria del Cueto

P1070075-001cha-bike-banco-travessa-cutEstou na área, na cara do gol. Pronta para mudar, com um leve toque, o placar. Fazer história, entrar para a memória coletiva popular anonimamente. Um por todos e todos por um, é o lema deste esquadrão.

Ouço o zumbido de vuvuzelas enquanto me movimento desajeitadamente em direção ao mosquito sanguinário que pica o peito do meu pé. Me desequilibro no banco de madeira maciça onde escrevo nas derradeiras páginas da uma caderneta 98,5% escrevinhada.

Já disse antes numa outra crônica que estas são as mais complicadas. Pela dificuldade de abandonar o caderninho, companheiro de tantas histórias. Este traz na capa o ideograma da SABEDORIA. As cores dominantes são o vermelho, o negro, o branco e o dourado.

Várias vezes, quando penso nos temas das crônicas e as atitudes na vida a tomar fico olhando suas formas, viajando nos seus traços, tentando entender a dinâmica da linda ilustração. Quanta sabedoria incrustada em suas linhas e curvas. É um ideograma chinês (ou será japonês?).

Pausa pra lembrar a história do cara que fez uma tatuagem símbolo oriental e levou um tempão pra descobrir que o ideograma significava COCA COLA…

Voltando a ele, acho que entre mortos e feridos o caderninho da sabedoria tem feito seu papel. De vez em quando demoro e só pego no tranco. Mas pelo menos (acho eu) tenho conseguido um pouco mais de paciência para resolver as coisas. Um pouco mais de tolerância para esperar o momento certo para agir.

Nem sempre é assim, ressalto, mas sinto o efeito da “sabedoria” no computo geral das minhas ações.

Sorte do entorno. Azar o meu, que tenho encontrado no silêncio e na ausência o ponto de equilíbrio da minha pouca sapiência.

Respiro fundo. Olho para a bola, ignoro o universo. Não preciso correr. Um leve toque, e ela faz uma curva jabulâmica, toma a velocidade certa, passa no alto, a esquerda do último defensor que se estica todo, passeia quase na gaveta e, como boa jalulântica, despenca um pouco e explode na rede, dentro do gol.

Antes da comemoração sinto que estou saboreada, degustada, atacada pelos mosquitos (irmãos irados do anteriormente exterminado) que ocupavam a vegetação no banco onde me aboleto.

Tudo acontece ao mesmo tempo. A luz se vai de uma vez, já não enxergo mais nada. Mas, pelo esforço que faço nesse vôo cego para escrever, posso sentir que o caderninho da sabedoria… acabou!

Somos, você – querido e fiel leitor que me acompanha – e eu, mais uma vez campeões!

** Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Este artigo faz parte da série Parador Cuyabano, do SEM FIM http://delcueto.multiply.com

Queimada, a (des)ventura e o caminho

Rio Cha 1005 157Texto e foto de Valéria del Cueto

Cada um tem a ventura que merece.  A minha mais desejada, mas não única, está a umas quatro luas cheias de distância, no mínimo. Como esperar? Há um  truque: se a primeira ventura está momentaneamente inalcançável,  mire na seqüente, e na outra, outra, outra… até que alguma ventura possa ser realizável. Aí, caia dentro.

É por essa lógica que chego aqui.

Soleira da porta do chalé da Travessa da Piscina, sem número. Tardinha de domingo, vendo o sol banhar o topo da vegetação da piscina pública, Parque da Quinera. Cercada de flores, folhas, formas e frutos. Ouvindo “Queimada”*, de Cide Guez, a algazarra das crianças brincando na rua sem movimento e, é claro, a passarinhada conversando entre rasantes no gramadão em frente. As folhas secas delimitam quão frondosas estão as mangueiras da esquina. Uma delas, já coberta de florezinhas.

Ao lado do portão antigo de ferro uma primavera (ou bougainville) gigante se aboleta aos pés de outra árvore, esta já morta, e se espreguiça sobre seu tronco, galhos e extremidades com milhares – isso mesmo eu disse milhares – de bouquets de florinhas em tons variados, numa palheta quente e luminosa, do bordô ao lilás. Uma ilha no meio do verde/azul reinante.

O sol cai, as sombras aumentam, mudando o  tons da paisagem. Agora, seus raios iluminam apenas o topo das bocaiuveiras ( ou serão bocaiuvais?)

Não é pouca ventura poder testemunhar e registrar um fim de tarde como esse. O mundo poderia parar, antes que as luzes da cidade comecem a disputar espaço com as infinitas estrelas do céu da Chapada dos Guimarães, Mato Grosso. A paz, apenas a paz, reinaria. Nada mais…

*Cide Guez, artista e amigo de Uruguaiana que nos deixou esta semana, é o autor da música que nunca esqueci (coisa rara). Ouvi Queimada, pela primeira vez , em 1980, na 10º. Califórnia da Canção Nativa. Fiquei impressionada pela visão proposta por ele. Me lembro até hoje  de algumas partes. Por que será?

QUEIMADA

Na boca da queima há um grito sentido

E a mão que incendeia não pede perdão,

nem ouve os gemidos dos lírios feridos…

………………………………….

É hora do homem parar de agredir

Ou gerações futuras

Serão caravanas errantes

Condenadas a morte e a fome

Numa terra que não vai parir.

Procurei a letra inteira na internet  mas não encontrei. É inaceitável que ela não exista no mundo… virtual. Por aqui, é só dar mais uns passinhos e  estaremos quase lá.

** Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Este artigo faz parte da série Parador Cuyabano, do SEM FIM http://delcueto.multiply.com

Poucas e Boas

Ponta out 09 006 passaro na ponta
l
Chove lá fora,
agora.
Como chove
aqui,
dentro.
Parece permenente.
Tempo da dor
que insiste
no que existe:
a hora de ser,
adeus.
II
chegou, passou,
partiu, fiquei.
ainda sou.
não estou
pra ninguém.
__________________
Vagabinhas de Valéria del Cueto

Pedagoga do IFMT apresenta artigo em Congresso Internacional de Educação

A pedagoga e pesquisadora do Campus Cuiabá – Octayde Jorge da Silva, Nádia Cuiabano Kunze, apresentará seu artigo científico “O Surgimento da Rede Federal de Ensino Profissional nos Primórdios do Regime Republicano Brasileiro”, no VIII Congresso Luso-Brasileiro de História da Educação que será realizado na cidade de São Luís, no Estado do Maranhão, no período de 22 a 25 de agosto de 2010. Esse artigo também foi publicado na 2ª edição da Revista Brasileira da Educação Profissional e Tecnológica, disponível no site do MEC – http://bit.ly/9PzE4y

O artigo resultou da sua pesquisa científica que investigou a trajetória histórica da Escola de Aprendizes Artífices de Mato Grosso (EAAMT) – embrião do atual Campus de Cuiabá “Octayde Jorge da Silva” do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Mato Grosso (IFMT) – no período de 1909 a 1941.

O texto aborda o processo de criação da rede federal de instituições escolares de ensino profissional no Brasil, na qual a EAAMT foi projetada. A partir da análise dos dados coletados, verificou-se que a Escola de Aprendizes Artífices de Mato Grosso, ocorreu quando o Presidente da República, Nilo Procópio Peçanha, expediu o Decreto nº. 7.566, de 23 de setembro de 1909, com o qual criou, em cada capital dos estados brasileiros, uma Escola de Aprendizes Artífices.

“A finalidade dessas escolas era a de ministrar o ensino de ofícios referentes às especialidades industriais de cada localidade, de proporcionar aos considerados ociosos e desprovidos da fortuna uma profissão, um ofício, e de formar os futuros operários úteis às indústrias nascentes. O conjunto das dezenove escolas profissionais congêneres foi concebido no âmbito das ações voltadas à afirmação e consolidação da República Federativa Brasileira, bem como, ao seu progresso que foi atribuído à educação do povo, ao controle social e à industrialização, entre outras condições”, relata o artigo da pesquisadora Nádia Kunze.

Conforme a pesquisadora, a Educação Profissional foi tratada como assunto de prioridade nacional tanto pelo governo federal quanto pelos governantes estaduais, esse projeto de educação profissional se concretizou rapidamente com a instalação de todas as escolas nos estados, à exceção da do Amazonas, antes de findar o ano de 1910.

Nádia Kunze é pedagoga pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Mestre em História da Educação pela UFMT. Doutoranda em História da Educação na Universidade de São Paulo (USP). É pesquisadora permanente do Grupo de Pesquisa História da Educação e Memória do Programa de Pós-graduação em Educação da UFMT. Atua como técnica administrativa do quadro efetivo do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso, Campus Cuiabá “Octayde Jorge da Silva” e é Conselheira Editorial da Revista Profiscientia/IFMT/Campus Cuiabá. Atualmente ela está afastada do IFMT para concluir o seu doutorado na USP.

Congresso Luso-Brasileiro de História da Educação

O Congresso Luso-Brasileiro de História da Educação é um veículo dos mais significativos para o intercâmbio de ideias e de resultados de investigação dos pesquisadores em História da Educação das comunidades lusitana e brasileira.

Historicamente, sua promoção expressa uma parceria internacional estabelecida entre o Grupo de Trabalho em História da Educação da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (GT-HE/ANPEd) e a Secção de História da Educação da Sociedade Portuguesa de Ciências da Educação (SHE/SPCE), contando, desde 1999, com a co-promoção da Sociedade Brasileira de História da Educação (SBHE).

A primeira versão do evento ocorreu em Lisboa, em 1996. As edições posteriores alternaram a sede sempre entre uma cidade brasileira e uma portuguesa: São Paulo/BR (1998), Coimbra/PT (2000), Porto Alegre/BR (2002), Évora/PT (2004), Uberlândia/BR (2006) e Porto/PT (2008).

Em 2010, o evento será realizado no Brasil, na cidade de São Luis no estado do Maranhão, de 22 a 25 de agosto, com a temática central: “Infância, Juventude e Relações de Gênero na História da Educação”.

Assessoria de Comunicação

Reitoria – IFMT

Juliana Michaela

(65) 3624-5577

Haragana

P1080268 - Haragana - nuvemTexto e foto de Valéria del Cueto

Quanta dificuldade para uma coisa que sempre me pareceu tão simples. Depois de passar olimpicamente (“O importante é competir”, dizia o Barão de Coubertin) pelas viradas dos trinta e dos quarenta fui pega no contrapé pelas indagações dos cinquenta anos.

Muito estranho, se considerarmos que falta uma cesta básica de quesitos referentes aos períodos anteriores na história natural das pessoas dessa faixa etária. Filhos, netos, marido, pouso fixo, pré-aposentadoria, casa própria…

Que maçada! Como lidar com uma crise dessas? Com que me aconselhar?

Pesquisa daqui, pesquisa dali a conclusão foi excluir os seres humanos que, cá entre nós, usam parâmetros pessoais para suas nem sempre bem intencionadas intervenções. Que não funcionam pela ausência dos fatores clássicos acima citados, comuns à maioria dos mortais.

Restam-me os imortais, estes sim, acima destes pequenos detalhes. É assim que volto à ele, o deus Sol e especifico o local ideal de contato: a Ponta. Do Leme. A minha praia de vida. Para não ter dúvidas, acerto os ponteiros para o dia dos dias e a hora das horas: sexta feira, meio da tarde!

Aperto os olhos ofuscados pelo brilho da areia branca, elevo vagarosamente a vista alcançando o azul do mar. Apuro os ouvidos, inundados pelos sons do quebrar das ondas, emoldurado pelo murmúrio gelado do vento de inverno. Mergulho no horizonte ultrapassando as ilhas em direção a invisível costa africana. Viajo.

É melhor do que ficar procurando explicações e justificativas para coisas que, se não fizeram sentido nos últimos cinquenta anos,  não tem por que terem o menor significado, só por que esse sentimento estranho de retrospectiva astral, essa banzo histórico de vida se apoderou de mim sem pedir licença.

E quer saber, caro leitor? Os cinqüenta já passaram. Na última segunda feira entrei na fase da boa idéia, perfeita para ser plenamente aproveitada. Com moderação que é para não fazer mal à saúde.

* Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Este artigo faz parte da série Ponta do Leme, do SEM FIM http://delcueto.multiply.com

Copyright © 2010 Matão - Mídia e Entretenimento